Crônica: Todo Mundo Corre: do fôlego da infância ao cansaço do desempenho

Quando criança, tal como qualquer moleque, eu tinha a impaciência de andar, já que meu corpo era leve, meus pulmões pareciam inesgotáveis e as ruas me convidavam ao movimento. Quando saía à rua, era como se o corpo formigasse por dentro e dissesse: “corre!”. Daí, eu corria. Se eu fosse a algum lugar, eu ia correndo. Se eu fosse à escola, à padaria ou à igreja, saía à porta e me danava pelo mundo. Ia num pé e voltava noutro. Como Forrest Gump, eu corria; como Lola, eu incentivava a todos para que corressem: corram, pelo amor de Deus, corram! Se agilizem, se apressem! Sangue nas veias, sebo nas canelas.

Fonte: RUN 4 FFWPU, em "pexels.com"

Eu corria sem saber o quanto havia corrido, pois nenhum relógio registrava meus passos ou batimentos cardíacos, e nenhum aplicativo me parabenizava. Eu corria porque tinha pressa de chegar, ao passo que, contrariamente, também não tinha pressa nenhuma. Corria porque minhas pernas pediam, porque o vento no rosto era bom, e porque correr era uma das formas de me sentir vivo. Era uma liberdade descompromissada.

Meus amigos corriam comigo. Meu primo e meu irmão mais velho também corriam. Durante algum tempo, tive a impressão de que correr era um direito natural de toda criança. Com os anos, observei que os meus amigos mais velhos iam parando de correr. E, gradualmente, meu primo e meu irmão também foram parando. Supus que, com a idade avançada, isto é, com a adolescência, eles passavam a sentir vergonha dos outros. Jurei a mim mesmo então que jamais sentiria vergonha de correr, não importando a idade que tivesse. Naturalmente, cresci e descumpri a minha jura.

Parei de correr na adolescência também. Meu fôlego deu lugar à gravidade dos deveres e das relações, enquanto meus pés fincavam raízes nas obrigações do cotidiano. Durante anos, não pensei mais em corrida. Até olhar para fora e perceber que o mundo, pós-pandemia, decidiu fazer o caminho inverso, redescobrindo-a. Nos últimos anos, a corrida de rua se tornou um fenômeno. Li reportagens sobre milhões de brasileiros ocupando parques e avenidas, sobre um mercado bilionário arrastando a Geração Z e a Classe C para as pistas. Vi surgir provas, assessorias esportivas, comunidades de corredores, marcas especializadas, influenciadores e uma infinidade de aplicativos capazes de transformar cada quilômetro em estatística. O discurso que acompanha esse movimento é sedutor: fala-se em saúde mental, bem-estar, endorfina, disciplina, dopamina, qualidade de vida, combate à ansiedade. E talvez haja verdade em tudo isso.

Há alguns meses, o meu primo me convidou para acompanhá-lo numa dessas corridas organizadas, realizada numa cidade vizinha. Não para eu correr (não havia me inscrito), mas para fotografá-lo correndo. Aceitei e, naquela manhã de sábado, lá fomos. No meio da multidão, fiquei parado observando a prova. Os corredores, tanto profissionais quanto amadores, passavam em ondas coloridas. Alguns sorriam para fotógrafos, muitos gritavam, enquanto outros olhavam para o relógio no pulso. Em determinado momento, um rapaz cruzou a minha frente, reduziu o passo por um instante e, antes mesmo de recuperar o fôlego, verificou o aplicativo de corrida para medir o seu desempenho. Não olhou para as árvores, nem para as pessoas ou para o percurso. Olhou para os números.

Consegui tirar algumas fotografias do meu primo. Porém, quando a prova terminou, ele não perguntou se eu também havia conseguido registrar a paisagem, a multidão ou a chegada. A primeira pergunta foi: “Saiu meu tempo no relógio?”. E, antes mesmo de entrarmos no carro de retorno para casa, suas fotografias já estavam sendo publicadas no Instagram. Talvez tenha sido naquele instante que comecei a entender o meu estranhamento em relação à profusão das corridas de rua (são mesmo nas redes sociais que vejo, cada vez mais, imagens desses corredores); pois não se trata da corrida em si, já que continuo achando importante correr. Em algum lugar dentro de mim ainda existe aquele moleque que disparava pelas ruas sem motivo algum. O que me inquieta é outra coisa.

Não virou a corrida de rua um simulacro de liberdade? Tenho a impressão de que a lógica do desempenho, que já domina o trabalho, o consumo e os relacionamentos, passou a ocupar também os espaços que antes funcionavam como refúgio. Se antes corríamos por brincadeira, hoje o sujeito se desgasta e se abate voluntariamente em nome de uma suposta auto-otimização. Ele precisa ser o melhor profissional, o melhor pai, ter a melhor estética e, agora, o melhor tempo no aplicativo de corrida. Byung-Chul Han observa que deixamos de ser uma sociedade disciplinar para nos tornarmos uma sociedade do desempenho. Transformamos o ócio e a válvula de escape em mais um ambiente de trabalho, de modo que o cansaço crônico e o burnout não são acidentes de percurso; são os troféus dessa dinâmica.

Já não precisamos de alguém nos vigiando, pois nós mesmos assumimos a função de vigilantes. Somos livres porque somos chefes e empregados de nós mesmos. Tal qual um hamster na roda, o corredor de rua corre, corre e corre, achando que está livre por escolher o ritmo da engrenagem, mas sem olhar para a paisagem, sem perceber que continua no mesmo canto. Talvez seja por isso que, vez ou outra, a corrida contemporânea me pareça menos uma fuga do sistema do que uma extensão dele. Se a sociedade nos cobra produtividade integral, então corremos para não ter que pensar para onde estamos indo. Corremos porque parar significaria encarar o vazio de uma vida que só faz sentido se estiver em produtividade. Corremos para melhorar índices, para cumprir metas, para superar versões anteriores de nós mesmos, para produzir resultados, e, em alguns casos, corremos até para descansar.

Sei que nem todo corredor está preso nessa lógica, e não digo tudo isso como acusação, afinal, também vivo cercado por métricas, prazos, notificações e expectativas de desempenho. Também transformo a maior parte da minha vida em produtividade e sinto culpa quando não estou fazendo nada. Talvez seja justamente por isso que essa obsessão contemporânea, por medir tudo, me chame tanta atenção. Por vezes me pergunto se parte da nossa ansiedade não nasce da incapacidade de simplesmente existir sem transformar a experiência em rendimento. Sem registrar, sem comparar, sem publicar e sem otimizar. Talvez a corrida, de fato, seja um medicamento para muita gente. O que me inquieta é quando o medicamento parece reproduzir a mesma lógica da doença.

Olho para trás e lembro do juramento que fiz quando criança, do medo de que envelhecer significasse ter vergonha do próprio comportamento. Hoje, percebo que meus amigos não deixaram de correr por vergonha dos outros. Talvez tenham apenas descoberto, antes de mim, que a estrada do mundo é longa demais para ser percorrida em disparada. Continuo acreditando que correr pode ser uma alegria. Mas começo a suspeitar que a maturidade não esteja em correr mais rápido nem em abandonar a corrida. Talvez esteja em reaprender a caminhar. E, sobretudo, em conseguir caminhar sem culpa.


Leonardo Hutamárty, escritor e pesquisador,

junho de 2026.

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