Resenha: O que é o cinema?, de André Bazin | Entre Páginas & Prateleiras
“O que é o cinema?”, de André Bazin, é uma obra que se destaca como uma das mais influentes no campo da teoria cinematográfica. Bazin, um dos mais importantes pensadores da teoria fílmica, foi um crítico e teorizador altamente respeitado, além de influenciador de um dos movimentos teóricos e estéticos mais expressivos no que diz respeito ao cinema, tal qual foi a Nouvelle Vague Francesa (o auge do cinema moderno). Nascido em 1918, Bazin desenvolveu sua paixão pelo cinema desde jovem, e seu percurso intelectual o levou a cofundar a revista “Cahiers du Cinéma”, espaço que se tornou o verdadeiro epicentro da intelectualidade cinematográfica europeia na metade do século XX. Além deste livro, Bazin é conhecido por suas contribuições fundamentais à teoria do cinema realista e pela promoção do auteurismo, conceitos que redefiniram o estatuto da sétima arte.
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| Imagem, Fonte: www.amazon.com.br/ |
Essa obra é uma coletânea de textos ensaísticos e críticos do autor, publicados originalmente em revistas especializadas na França (principalmente na própria Cahiers), e mais tarde organizados em forma de livro para consolidar seu legado. Aqui, temos uma reflexão profunda sobre o que de fato caracteriza o cinema, a linguagem cinematográfica, quer de forma expressamente teórico-reflexiva, quer por meio de textos críticos relacionados a filmes específicos, ou mediante uma mescla dessas duas categorias. Bazin discute profundamente o cinema, especialmente em sua relação com aquilo que se pode classificar como real. Ele não enxerga a tela como uma mera pintura ou um palco de teatro estendido, mas como uma “janela aberta para o mundo”. Ao mesmo tempo, consegue relacionar o cinema com outras formas de arte, como a literatura e o teatro, tornando sua obra ainda mais rica e interessante, fugindo do isolamento estético que muitos de seus contemporâneos defendiam.
A influência histórica de André Bazin é inegável. Ele inaugurou uma escola de crítica cinematográfica moderna que até hoje influencia praticamente todo o exercício analítico sério de nossa cultura. Longe de ser um acadêmico encastelado, Bazin produziu um corpo ímpar de crítica, história e teoria do filme. Atuando no calor do momento, enquanto crítico, ensaísta, teórico, cofundador da Cahiers du Cinéma e “padrinho” da nova onda do cinema francês, abrigou e orientou jovens realizadores como François Truffaut e Jean-Luc Godard. Por isso, a sua influência não pode ser subestimada: ele deu as ferramentas conceituais para o cinema deixar de ser visto apenas como um entretenimento de massas ou uma cópia das artes tradicionais e passar a ser compreendido em sua especificidade ontológica.
Para compreender a vastidão desse pensamento, podemos observar que quatro teses robustas e bem delineadas podem ser defendidas a partir dos ensaios mais famosos do livro. Primeiro, o cinema como libertação da arte, baseada no texto seminal “Ontologia da Imagem Fotográfica”, onde se discute como a reprodução mecânica aliviou a pintura da necessidade de imitar o real. Em segundo lugar, o Neorrealismo Italiano como a “pureza” do cinema, baseada nos ensaios sobre o Neorrealismo e as obras de Vittorio De Sica, em que se exalta a recusa da maquiagem ideológica em favor do fato bruto cotidiano. Em terceiro, a profundidade de campo como emancipação do espectador, extraída de “A Evolução da Linguagem Cinematográfica”, que analisa a revolução técnica e espacial da imagem. E, por último, a defesa do “cinema impuro”, baseada em “Por um Cinema Impuro: Defesa da Adaptação”, onde o autor quebra o dogma da pureza estética para celebrar o diálogo benéfico do cinema com o teatro e a literatura.
Aqui, argumentaremos especificamente sobre a terceira via proposta: a profundidade de campo como emancipação do espectador. Longe de ser apenas um recurso técnico ou uma preferência visual de determinados diretores, a profundidade de campo constitui uma escolha ética e política na teoria baziniana, por devolver ao espectador a liberdade de explorar a imagem e construir o seu próprio sentido, subvertendo a tirania da montagem manipuladora.
André Bazin argumenta fortemente a favor do realismo cinematográfico, defendendo que o cinema, por sua natureza técnica, tem a capacidade única de reproduzir a realidade objetivamente. Diferente da pintura, onde a mão do artista sempre interfere e interpreta, o processo fotográfico é mecânico. Há uma ausência do homem na criação da imagem, o que lhe confere um poder de credibilidade que nenhuma outra arte possui. Apesar de que a ênfase de Bazin na objetividade pode ser considerada excessiva, negligenciando o papel da subjetividade e da intervenção artística na criação cinematográfica. Entretanto, ele busca a “ontologia” do cinema, isto é, a investigação da própria essência do ser do cinema, enfatizando a importância de preservar a realidade na imagem, minimizando a intervenção técnica e artística que desfigure o tempo e o espaço contínuos.
Para entender o peso dessa postura, é preciso lembrar que Bazin reagiu à predominância da estética formalista, sempre defendendo uma abordagem mais realista do cinema. O coração de sua crítica e um dos capítulos mais célebres do livro surgiram como uma resposta direta à montagem soviética (de diretores como Sergei Eisenstein e Lev Kuleshov) e à manipulação da imagem promovida pelo expressionismo alemão. Na visão de Bazin, essas escolas utilizavam o cinema para impor um sentido pré-fabricado ao público.
Na montagem soviética, por exemplo, o sentido não estava na imagem em si, mas na colisão entre duas imagens diferentes — o famoso Efeito Kuleshov, onde o plano de um rosto neutro seguido pelo plano de um prato de sopa faz o espectador ler “fome”. Bazin via nisso uma forma de violência intelectual ou truque ilusionista: o diretor decide o que você deve pensar, sentindo e mastigando a realidade antes de entregá-la ao público. O expressionismo alemão, por sua vez, manipulava a realidade mediante cenários distorcidos e iluminação artificial pesada, violentando a plasticidade da realidade. Contra isso, Bazin defendia a importância vital da captura da realidade na tela, respeitando o mistério inerente às coisas.
É nesse cenário de resistência ao artificialismo que a profundidade de campo surge como a grande heroína da evolução da linguagem cinematográfica. Quando diretores como Orson Welles (em Cidadão Kane, 1941) e Jean Renoir (em A Regra do Jogo, 1939) passam a filmar utilizando lentes que mantêm tanto o primeiro plano quanto o plano de fundo perfeitamente focados, eles alteram drasticamente a relação do espectador com a tela. Em um filme com montagem clássica ou foco raso, o olho do espectador é passivo; ele olha apenas para o único objeto que está nítido, enquanto o resto do cenário é um borrão.
Na profundidade de campo, a tela ganha uma densidade realista. Se três personagens estão conversando em primeiro plano, mas um quarto personagem entra discretamente por uma porta ao fundo da sala, e também está em foco, o diretor não precisa cortar para um plano detalhe da porta. O espaço é preservado em sua totalidade. Isso gera três consequências estéticas e psicológicas fundamentais que sustentam a tese da emancipação do espectador.
Primeiro, uma postura mental ativa. O espectador deixa de ser um consumidor passivo de imagens justapostas, sendo um explorador do plano. Ele precisa utilizar sua própria atenção para decidir qual detalhe da cena merece sua análise. O sentido do filme não é dado de bandeja; é descoberto por quem assiste. Segundo, há respeito à ambiguidade do real. Os acontecimentos da realidade sempre são ambíguos e cheios de estímulos simultâneos. A montagem clássica destrói essa ambiguidade ao isolar os elementos. Daí, a profundidade de campo reintroduz a dúvida e a multiplicidade de sentidos na imagem; e o espectador é quem decide se a reação do personagem do fundo é mais importante do que o diálogo de quem está na frente. Finalmente, há a aproximação com a experiência perceptiva natural. Nós não enxergamos o mundo em cortes abruptos. Nossa visão foca e passeia pelo espaço continuamente. Ao utilizar a profundidade de campo aliada ao plano-sequência, o cinema se aproxima da unidade temporal e espacial da própria existência. Apesar de que essa defesa da longa tomada contínua também pode ser considerada idealista, em face das limitações tecnológicas da época.
Diferentemente de abordagens mais formalistas e puristas, que viam o cinema como uma arte que precisava se isolar para garantir sua posição, Bazin aceita a impureza do cinema como uma arte composta por elementos técnicos e artísticos diversos. Ele não nega o artifício, mas exige que a técnica sirva para revelar o real, e não para escondê-lo. Ele destaca a importância do ato fotográfico, argumentando que a fotografia é um meio mais fiel de representação do que outras formas artísticas, justamente porque transfere a qualidade do objeto real para a sua reprodução. Existe uma “gênese automática” que vincula a imagem à origem física no mundo exterior.
Por fim, essa defesa do realismo e da autonomia do plano não sufocou a figura do diretor; pelo contrário, Bazin contribui diretamente para o desenvolvimento da teoria do autor (auteurismo), enfatizando a importância do cineasta como autor de sua obra. No entanto, o “autor”, para Bazin, não é o ditador que manipula a imagem por meio de cortes e truques de montagem, mas o artista que demonstra sua genialidade mediante a escolha de como olhar o mundo. A autoria se manifesta na decupagem, na colocação da câmera e na paciência de deixar a realidade se manifestar. Essa perspectiva influenciou futuros críticos e os jovens cineastas da Nouvelle Vague a valorizar a singularidade da visão do cineasta e a analisar o cinema como uma expressão estritamente pessoal, consolidando a ideia de que a câmera é como a caneta de um escritor.
Comparando “O que é o cinema?” com outros livros no mesmo contexto, podemos dizer que a obra de André Bazin continua a ser uma referência essencial e absolutamente incontornável na teoria cinematográfica contemporânea. Sua influência não apenas transformou a maneira como o cinema é percebido pelas instituições artísticas, mas também moldou o curso prático da crítica cinematográfica e da própria realização de filmes ao longo das décadas. Bazin ofereceu uma abordagem reflexiva que superou seu próprio tempo, proporcionando uma estrutura duradoura para a apreciação e análise cinematográfica que resiste até mesmo às transformações tecnológicas mais radicais. Outros livros, como “A Linguagem do Cinema” de Christian Metz e “A Arte do Cinema” de David Bordwell, também são importantes, mas não têm a mesma profundidade, abrangência e influência que a obra de Bazin.
Realizadores contemporâneos, já habituados ao império das telas digitais, dos efeitos visuais gerados por computador (CGI) e da velocidade frenética dos cortes voltados para os algoritmos das redes sociais e do streaming, devem olhar para “O Que é o Cinema?” como um manifesto de resistência e sobrevivência estética. O diagnóstico de Bazin sobre o perigo da manipulação visual nunca foi tão preciso. Atualmente, em uma era em que a inteligência artificial pode criar imagens perfeitamente realistas a partir de prompts de comando, a busca de Bazin pela “ontologia” e pelo cordão umbilical que une a imagem cinematográfica ao mundo físico ganha contornos de urgência ética. Quando Bazin critica o excesso de montagem e elogia a profundidade de campo, ele está nos alertando contra a anestesia do olhar.
Filmar com profundidade de campo e permitir que o tempo corra no plano se tornou um ato de coragem política. Significa desafiar a pressa do espectador contemporâneo, convidando-o a desacelerar e a exercer a paciência da observação. Bazin nos lembra que a magia do cinema não está na nossa capacidade de inventar mundos falsos por meio do controle técnico absoluto, mas na nossa capacidade de nos colocarmos diante do mundo real com humilde atenção, esperando que ele se nos revele.
Portanto, este livro não é apenas uma obra que teoriza o surgimento da modernidade cinematográfica a partir dos anos 1940 e 1950; ele permanece como uma fonte inesgotável de percepções para todos que desejam compreender a natureza única, complexa e profundamente humana do cinema. André Bazin escreveu seu livro no período do pós-Segunda Guerra Mundial, propondo-se a entrar no campo de disputa de saberes do cinema, na época de renovação cultural e artística na França, e se tornou um pensador altamente respeitado quanto às funções de crítico e teorizador. Ele nos ensinou, fundamentalmente, que defender o realismo na tela é, acima de tudo, um ato de respeito e fé na inteligência do espectador.

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